palavra que a pariu...

Monday, April 03, 2006

Vidas Vigiadas

O século XXI com os seus avanços tecnológicos, tema central da actualidade, encontra-se cheio de controvérsias. Ora vejamos, todos falamos em estar “on-line”, navegar na “net”. Esta rede imensa que reúne tantos pequenos e grandes pontos do universo, permite o acesso a tanta informação quanto podemos imaginar. Sem sair de casa, é fácil fazer compras, visitar museus, ler jornais, conversar com outra pessoa a milhares de quilómetros de distância...
Por outro lado, os cartões de identificação magnéticos são óptimos para alugar um filme, ou acumular pontos de uma qualquer promoção de uma qualquer empresa que promete oferecer um carro topo de gama ao seu cliente mais fiel. Pois é, é tudo óptimo de facto! Mas o pior vem depois. E como “não há bela sem senão” e há sempre o lado bom e mau das coisas, através da Internet tem sido possível violar contas bancárias, entrar no nosso computador e roubar a informação pretendida. Através desta vasta rede promissora, os piratas dos tempos modernos metem o nariz e a mãozinha no alheio. Nos bens e na vida alheia. Na nossa privacidade. Ás vezes não parece, é verdade! Até se usam “nicks”
[1] nas salas de “chat”[2]...parece que se pode fazer tudo, dizer tudo sem ninguém saber! Ninguém sabe quem somos, usamos nomes ‘falsos’...e no meio destas sombras da identidade, surgem umas intromissões assim, de vez em quando.
Mas o caso dos cartões magnéticos não fica impune a este lado negro da tecnologia. Ao efectuar uma compra, ao alugar um filme com um prático cartãozinho, os nossos dados vão-se completando na base de dados da loja ou da empresa. Se for preciso, é muito fácil saber em que dia e a que hora a Luísa alugou o seu filme favorito. Bem, e então quando todas estas informações se cruzam nem imaginam! Vamos agora dar uma olhadela às bases de dados dos serviços de portagens. Afinal a dita senhora antes de alugar o filme, passou na portagem sem pagar! Ai ai! Bem, a matrícula revela tudo: segundo os registos, este esquecimento não é o primeiro.
Como se pode ver neste pequeno exemplo fictício, pedacinhos de nós andam por aí, sabe-se lá por onde. E o mais engraçado são aquelas letrinhas nos pequenos formulários que geralmente ninguém lê. Aquelas com um quadradinho à frente para assinalarmos que não queremos os nossos dados divulgados a terceiros. Às vezes, andamos por esse mundo divididos com a nossa total permissão, consciente ou não.
Será que a privacidade existe? Ou não será mesmo necessário estes dados serem “divulgados”? Quem sabe esta não-privacidade será útil para apanhar algum larápio que foi filmado na estação do metro? Num mundo onde se diz reinar a liberdade, talvez sejamos cada vez menos livres de ser donos do nosso espaço, dos nossos dados, pelo bem guardados em computadores, em câmaras de filmar do metro tendo em conta a segurança, pelo mal ao serem divulgados por nós, e assim, com este consentimento ao ser dado livre acesso a informações privadas podendo estas cair onde não devem.
Acontece a todo e qualquer momento. Esta vigilância permanente é suave e quase imperceptível. Disseminada e subtil qual rede fina e transparente. Ninguém gosta quando uma vizinha mais afoita ouve uma conversa lá de casa ou tenta coscuvilhar outras vidas que não a sua. Mas talvez ninguém se lembre que fornece por si só dados mais que coscuvilháveis a um número de entidades sem fim.
Contudo há que frisar que a tecnologia é deveras importante, não haja dúvida! Tudo depende do uso que fazemos e que é possível fazer dela.
[1] Nome que se encontra relacionado com quem o possui embora não sendo o nome próprio. Uma espécie de alcunha.
[2] Traduzindo do inglês: salas de conversação, ou de conversa em que é possível colocar em interacção pessoas de todo o mundo com um objectivo ou preferência em comum.



  • Para que não se faça confusão, este texto não é copiado de lado nenhum, visto que foi publicado numa das edições do jornal "Badaladas" como artigo de opinião. Assim, se tiver de pagar direitos de autor, pago a mim mesma - a autora sou eu! eheh

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