palavra que a pariu...

Monday, April 17, 2006

As doenças crónicas da saúde portuguesa

Em Portugal é sempre fácil dizer mal de tudo. Ora do governo que nas palavras do povo “nunca faz nada”, ora do país em geral que segundo muitos “está na mesma”. Dizer mal e criticar o estacionário estado das coisas, quando não regressivo, é uma prática comum entre nós. Mas atenção, porque não há fumo sem fogo e se por vezes se exagera, por outras tem-se toda a razão. E o caso da saúde é uma dentre inúmeras situações onde a abespinhada e efervescente crítica revoltada põe a nu a causa da sua erupção.
Uma doença bastante grave da Saúde nacional (isto já para não falar nos díspares casos de negligência médica) é o tempo. O tempo que se espera para uma consulta, ou operação, por exemplo. As listas de espera fazem exasperar durante meses e anos, um número de pessoas quase ilimitado. Assim, tudo se torna irrisório quando se solicita a presença do utente, após a sua passagem para o outro mundo e que devido aos infortúnios da vida não poderá jamais usufruir do serviço de saúde estatal....
Mas não sejamos assim tão pessimistas! Neste olhar crítico lançado à saúde, analisemos agora a pormenor o processo de uma consulta num banal Centro de Saúde público. Quem não necessitou já de esperar horas a fio para ser dono de uma marcação ou vaga para uma consultazinha no médico de família? Quer fosse para mostrar análises ao Senhor Doutor, quer fosse para outra coisa qualquer? Bem, “coisa qualquer” não é decerto, pois uma coisita simples não justifica as eternidades passadas à porta dos centros de saúde, faça chuva, faça sol, e já agora, faça neve! Mas enfim, lá terá de se justificar, ou se espera, ou não. A decisão é toda nossa. A saúde e a paciência, também.
Chega-se à conclusão que não existe relógio que resista à contagem do tempo decorrido em vão, nas salas de espera de Portugal! No que a elas diz respeito, há até quem diga que para a próxima, já ninguém os apanha. Leva-se o almoço (e já agora o jantar) num termo, cobertores, almofada e pijama para lá passar a noite enquanto se aguarda o desejado chamamento pelo intercomunicador. Até lá, suspira-se, lê-se uma desbotada revista cor-de-rosa de 1990, olha-se para o relógio lento, suspira-se e espera-se...espera-se...espera-se...
Se, por fim ainda for necessário carimbar ou fazer qualquer outra coisa de índole burocrática nas ditas “credenciais”, após a consulta, então somemos mais uns minutos à espera que convém ser silenciosa, tal como as placas afixadas nos indicam. Sim, porque o telefone do guichet foi atendido mil vezes, o computador bloqueou outras tantas e o empregado cavaqueia animadamente com o colega ou com o senhor doutor que acabou de chegar. E nós? Esperemos, pois então! E já que tanto se discute no que diz respeito ao plano tecnológico (as duas palavras seguramente mais utilizadas nos últimos tempos) não seria talvez melhor planear um conhecimento tecnológico a adquirir por parte dos funcionários de balcão (e outros)? Que perdem preciosos e longos minutos do seu tempo e do nosso ao tentar a custo pesaroso preencher um formulário a computador? Que tal cursos, acções de formação? Sócrates, o filósofo, diz-nos na obra “Fédon” de Platão, que o conhecimento verdadeiro é algo que nasce connosco mas teremos de fazer um esforço para recordar o que conhecemos em tempos idos. Será? Talvez seja melhor dar o benefício da dúvida às teorias deste filósofo mas o esforço é, de facto, imprescindível. E já que se quer modernizar o país, comecemos pelos homens (relembrados ou não), que são no fundo aqueles que lidam com as máquinas. Pois de que valerão elas se não se souber como funcionam?
Enfim, a burocracia impera! É sempre preciso preencher papelinhos, constituir filas onde se espera que o tempo passe veloz, e tudo isto nos faz perder a paciência! Em que estado se encontra a Saúde em Portugal, quando estas situações vividas nas salas de espera passam do ridículo ao anedótico...perdão, salas de desespero!
Não há nada pior do que uma Sáude doente.




* Texto já publicado (21/04/2006)

Monday, April 03, 2006

Vidas Vigiadas

O século XXI com os seus avanços tecnológicos, tema central da actualidade, encontra-se cheio de controvérsias. Ora vejamos, todos falamos em estar “on-line”, navegar na “net”. Esta rede imensa que reúne tantos pequenos e grandes pontos do universo, permite o acesso a tanta informação quanto podemos imaginar. Sem sair de casa, é fácil fazer compras, visitar museus, ler jornais, conversar com outra pessoa a milhares de quilómetros de distância...
Por outro lado, os cartões de identificação magnéticos são óptimos para alugar um filme, ou acumular pontos de uma qualquer promoção de uma qualquer empresa que promete oferecer um carro topo de gama ao seu cliente mais fiel. Pois é, é tudo óptimo de facto! Mas o pior vem depois. E como “não há bela sem senão” e há sempre o lado bom e mau das coisas, através da Internet tem sido possível violar contas bancárias, entrar no nosso computador e roubar a informação pretendida. Através desta vasta rede promissora, os piratas dos tempos modernos metem o nariz e a mãozinha no alheio. Nos bens e na vida alheia. Na nossa privacidade. Ás vezes não parece, é verdade! Até se usam “nicks”
[1] nas salas de “chat”[2]...parece que se pode fazer tudo, dizer tudo sem ninguém saber! Ninguém sabe quem somos, usamos nomes ‘falsos’...e no meio destas sombras da identidade, surgem umas intromissões assim, de vez em quando.
Mas o caso dos cartões magnéticos não fica impune a este lado negro da tecnologia. Ao efectuar uma compra, ao alugar um filme com um prático cartãozinho, os nossos dados vão-se completando na base de dados da loja ou da empresa. Se for preciso, é muito fácil saber em que dia e a que hora a Luísa alugou o seu filme favorito. Bem, e então quando todas estas informações se cruzam nem imaginam! Vamos agora dar uma olhadela às bases de dados dos serviços de portagens. Afinal a dita senhora antes de alugar o filme, passou na portagem sem pagar! Ai ai! Bem, a matrícula revela tudo: segundo os registos, este esquecimento não é o primeiro.
Como se pode ver neste pequeno exemplo fictício, pedacinhos de nós andam por aí, sabe-se lá por onde. E o mais engraçado são aquelas letrinhas nos pequenos formulários que geralmente ninguém lê. Aquelas com um quadradinho à frente para assinalarmos que não queremos os nossos dados divulgados a terceiros. Às vezes, andamos por esse mundo divididos com a nossa total permissão, consciente ou não.
Será que a privacidade existe? Ou não será mesmo necessário estes dados serem “divulgados”? Quem sabe esta não-privacidade será útil para apanhar algum larápio que foi filmado na estação do metro? Num mundo onde se diz reinar a liberdade, talvez sejamos cada vez menos livres de ser donos do nosso espaço, dos nossos dados, pelo bem guardados em computadores, em câmaras de filmar do metro tendo em conta a segurança, pelo mal ao serem divulgados por nós, e assim, com este consentimento ao ser dado livre acesso a informações privadas podendo estas cair onde não devem.
Acontece a todo e qualquer momento. Esta vigilância permanente é suave e quase imperceptível. Disseminada e subtil qual rede fina e transparente. Ninguém gosta quando uma vizinha mais afoita ouve uma conversa lá de casa ou tenta coscuvilhar outras vidas que não a sua. Mas talvez ninguém se lembre que fornece por si só dados mais que coscuvilháveis a um número de entidades sem fim.
Contudo há que frisar que a tecnologia é deveras importante, não haja dúvida! Tudo depende do uso que fazemos e que é possível fazer dela.
[1] Nome que se encontra relacionado com quem o possui embora não sendo o nome próprio. Uma espécie de alcunha.
[2] Traduzindo do inglês: salas de conversação, ou de conversa em que é possível colocar em interacção pessoas de todo o mundo com um objectivo ou preferência em comum.



  • Para que não se faça confusão, este texto não é copiado de lado nenhum, visto que foi publicado numa das edições do jornal "Badaladas" como artigo de opinião. Assim, se tiver de pagar direitos de autor, pago a mim mesma - a autora sou eu! eheh