"Está ocupado!"
Marcam-se lugares numa mesa de restaurante, marca-se uma consulta, a data de um casamento, fazem-se reservas em hotéis. Demonstra-se assim, a nossa presença futura num espaço delimitado temporal e espacialmente. Contudo, a dita reserva ou marcação é hoje em dia, e desde há muito levada à letra.
Marcar, reservar lugares no tosco sentido contemporâneo são conceitos quiçá oriundos das práticas católicas romanas do pagamento das indulgências. De certo modo, constituíam um autêntico bilhete para o céu, para os fiéis pecadores que se viam livres dos pecados e marcavam assim o seu prometido lugarzito no paraíso mediante claro está, de um pagamento à Igreja. Esta prática remonta ao século XIII, tendo sofrido fortes e derradeiras tempestades com Martinho Lutero no século XVI.
Evoluindo no tempo eis mais um vício que se encontra implementado entre nós, com raízes bem profundas e que, penosamente, teima permanecer: a falta de...nem sei como lhe chame. De civismo? De educação? Ou de bom-senso? Analisemos a síndrome dos lugares marcados.
Todos nós ao longo da vida, nem que fosse apenas por uma vez singular nos deparámos com esta situação bem caricata. Suspira-se por um lugar sentado, numa conferência, num banal espectáculo de variedades. Enfim, em locais mais ou menos espaçosos onde existem as tais cadeiras tão desejadas pelo público. Dá-se então a corrida à cadeira disponível, esta quanto mais próxima do acontecimento estiver, mais apetecida se torna pelas gentes sequiosas por dobrar os joelhos e assistir comodamente a um evento. Mas surgem novos “actores” nesta comédia e chegam os temíveis casacos, malas, sacos marcadores de lugares. São desmancha-prazeres não haja dúvida! Sinalizam que ninguém se poderá ali sentar sem que pertença ao leque de parentescos familiares ou do círculo de amigos do dono do dito cujo. É por assim dizer, um indicativo de propriedade...infeliz o pontual! Ficará de pé e sem uma boa visibilidade. Paciência conforma-se com “estar de pé faz bem à circulação”.
Assim, quem chega bem cedinho, ao contrário do tradicional atraso, costume português característico, já vê no horizonte, ou passa imediatamente a ver os lugares ditos “ocupados” por esses elementos não-vivos que pelo que se saiba, não precisam por si de se sentar. Quem chega cedo a contar com o lugarzito, acaba por chocar contra uns olhos arregalados e uma cara de quem acabou de ser insultado. Logo de rompante ouve-se comummente o habitual “está ocupado!” – mas...pensamos e devíamos dizer: o lugar está ocupado? Por um casaco? Tratar-se-á de alguma casa de banho pública em que geralmente a mesma mensagem se lê na maçaneta? Ou da mensagem que se ouve do utente do outro lado da porta? A cadeira/banco/”lugar” é propriedade sua? Ou não será que tem direito quem chega primeiro, quem é pontual? Apetece não raras vezes pegar delicadamente no marcador, perguntar ao suposto dono se é verdade que o seja, e sentar como se nada fosse.
Actos destes são actos de verdadeiro atrevimento, o facto de se usurpar lugares em virtude dos amigos, da tia, da prima, do vizinho, da madrinha...atrasados! Mas gozando de plena forma física, sem deficiências, sem um bebé no ventre, sem rugas e sem velhice...merecedores de um privilégio.
Famílias inteiras, por vezes, desfrutam do conforto de um lugar, longas horas depois de dar início um evento que mereça cadeiras! Sentam-se, agradecendo ao casaco amigo o jeitinho que lhes deu. Será que existe ainda quem traga roupas, sacos, bolsas do seu lar com a intenção premeditada? A julgar pelo número de lugares que habitualmente vemos ocupados, não seria de estranhar.
Imaginemos agora o que será de nós se esta desditosa prática se começa a espalhar por aí. Qualquer dia, marcam-se bancos no metro, (na hora de ponta, é certo que dava jeito), lugares na fila do talho! Como se não existissem já lugares reservados para tudo, para os organizadores de um evento, para algumas pessoas em parques de estacionamento...todavia, se o motivo for a indispensabilidade, compreende-se, mas de resto é de lastimar.
Não só revelador de falta de civismo, o acto de reservar espaços desta forma grotesca é o espelho de uma sociedade individualista, voltada para o seu umbigo, onde o indivíduo só se interessa por si e pelos seus e nada mais. Não há “outro” para além do “eu” e do “nós”. O lema é “cada um por si” – característico das sociedades modernas como sugere Alexis de Tocqueville. Há que respeitar o espaço do outro pois não nos devemos sentir no direito a algo que não nos pertence, de facto.
Vamos lá então deixar para trás as marcações sem sentido! Cortemos pela raiz com esse costume maldito de marcar lugares! É hora de parar de dizer com tédio: “está ocupado!”
Marcar, reservar lugares no tosco sentido contemporâneo são conceitos quiçá oriundos das práticas católicas romanas do pagamento das indulgências. De certo modo, constituíam um autêntico bilhete para o céu, para os fiéis pecadores que se viam livres dos pecados e marcavam assim o seu prometido lugarzito no paraíso mediante claro está, de um pagamento à Igreja. Esta prática remonta ao século XIII, tendo sofrido fortes e derradeiras tempestades com Martinho Lutero no século XVI.
Evoluindo no tempo eis mais um vício que se encontra implementado entre nós, com raízes bem profundas e que, penosamente, teima permanecer: a falta de...nem sei como lhe chame. De civismo? De educação? Ou de bom-senso? Analisemos a síndrome dos lugares marcados.
Todos nós ao longo da vida, nem que fosse apenas por uma vez singular nos deparámos com esta situação bem caricata. Suspira-se por um lugar sentado, numa conferência, num banal espectáculo de variedades. Enfim, em locais mais ou menos espaçosos onde existem as tais cadeiras tão desejadas pelo público. Dá-se então a corrida à cadeira disponível, esta quanto mais próxima do acontecimento estiver, mais apetecida se torna pelas gentes sequiosas por dobrar os joelhos e assistir comodamente a um evento. Mas surgem novos “actores” nesta comédia e chegam os temíveis casacos, malas, sacos marcadores de lugares. São desmancha-prazeres não haja dúvida! Sinalizam que ninguém se poderá ali sentar sem que pertença ao leque de parentescos familiares ou do círculo de amigos do dono do dito cujo. É por assim dizer, um indicativo de propriedade...infeliz o pontual! Ficará de pé e sem uma boa visibilidade. Paciência conforma-se com “estar de pé faz bem à circulação”.
Assim, quem chega bem cedinho, ao contrário do tradicional atraso, costume português característico, já vê no horizonte, ou passa imediatamente a ver os lugares ditos “ocupados” por esses elementos não-vivos que pelo que se saiba, não precisam por si de se sentar. Quem chega cedo a contar com o lugarzito, acaba por chocar contra uns olhos arregalados e uma cara de quem acabou de ser insultado. Logo de rompante ouve-se comummente o habitual “está ocupado!” – mas...pensamos e devíamos dizer: o lugar está ocupado? Por um casaco? Tratar-se-á de alguma casa de banho pública em que geralmente a mesma mensagem se lê na maçaneta? Ou da mensagem que se ouve do utente do outro lado da porta? A cadeira/banco/”lugar” é propriedade sua? Ou não será que tem direito quem chega primeiro, quem é pontual? Apetece não raras vezes pegar delicadamente no marcador, perguntar ao suposto dono se é verdade que o seja, e sentar como se nada fosse.
Actos destes são actos de verdadeiro atrevimento, o facto de se usurpar lugares em virtude dos amigos, da tia, da prima, do vizinho, da madrinha...atrasados! Mas gozando de plena forma física, sem deficiências, sem um bebé no ventre, sem rugas e sem velhice...merecedores de um privilégio.
Famílias inteiras, por vezes, desfrutam do conforto de um lugar, longas horas depois de dar início um evento que mereça cadeiras! Sentam-se, agradecendo ao casaco amigo o jeitinho que lhes deu. Será que existe ainda quem traga roupas, sacos, bolsas do seu lar com a intenção premeditada? A julgar pelo número de lugares que habitualmente vemos ocupados, não seria de estranhar.
Imaginemos agora o que será de nós se esta desditosa prática se começa a espalhar por aí. Qualquer dia, marcam-se bancos no metro, (na hora de ponta, é certo que dava jeito), lugares na fila do talho! Como se não existissem já lugares reservados para tudo, para os organizadores de um evento, para algumas pessoas em parques de estacionamento...todavia, se o motivo for a indispensabilidade, compreende-se, mas de resto é de lastimar.
Não só revelador de falta de civismo, o acto de reservar espaços desta forma grotesca é o espelho de uma sociedade individualista, voltada para o seu umbigo, onde o indivíduo só se interessa por si e pelos seus e nada mais. Não há “outro” para além do “eu” e do “nós”. O lema é “cada um por si” – característico das sociedades modernas como sugere Alexis de Tocqueville. Há que respeitar o espaço do outro pois não nos devemos sentir no direito a algo que não nos pertence, de facto.
Vamos lá então deixar para trás as marcações sem sentido! Cortemos pela raiz com esse costume maldito de marcar lugares! É hora de parar de dizer com tédio: “está ocupado!”
* Texto já publicado
